Como fazê-la cair no amor com você

O Vídeo Viral

2019.09.01 02:21 KoopaTrope O Vídeo Viral

No meio do restaurante lotado, a mulher subiu na mesa e cantou:
- Eu tenho tanto…
Todos ao seu redor a olharam confusos.
Um homem de terno subiu em outra mesa e continuou a música do Roberto:
- Pra lhe falar…
“Oh não!” pensou Marcelo. “Oh não, oh não, oh não! Puta que o pariu! É um daqueles vídeos. Flash mob?”
Um dos cozinheiros do local apareceu na janelinha por onde os pratos sujos passavam, e cantou com um sotaque português forte:
- Maish cum p-lavras…
Marcelo se levantou. “Preciso sair daqui. Essa porra vai virar vídeo de WhatsApp. Preciso sair agora!”. Muitos o olharam como se ele fosse o próximo a cantar. Ele correu, tentando tampar seu rosto.
Uma moça de vestido longo levantou-se, empurrando sua cadeira e bloqueando o corredor. Marcelo parou de supetão para não trombar-se com ela. A mulher subiu na cadeira e cantou, com graves e agudos exagerados tentando impressionar:
- E nã-ÃO há NA-a-A-da…
Marcelo pôde sentir os celulares se virarem para onde estavam. Imaginou seu rosto compartilhado nos grupos de famílias do Brasil inteiro. No desespero, puxou a cadeira. A moça, que ainda cantava, caiu gritando uma nota fora da escala. Estatelou-se no chão.
“Merda, o que foi que eu fiz?”
Marcelo percebeu que, além de ter agredido uma pessoa, atraíra mais atenção para si. Com a adrenalina a flor da pele, pulou a moça e a cadeira num salto só e correu o mais rápido que pôde, desviando-se de mesas, pessoas e garçons.
- Pra comparar…
Ele já não via quem estava cantando. Na sua frente uma senhorinha num andador bloqueava a sua passagem. Ela parecia confusa, tentando entender o que se passava ao seu redor. Marcelo não ousava gritar e ter sua voz no vídeo, mas acenava com as mãos enquanto corria, tentando chamar sua atenção e fazê-la lhe dar passagem.
- Pra poder…
Um telão caiu cobrindo uma parede inteira do restaurante português. Com o canto dos olhos, Marcelo leu: FELIZ DIA DA COMUNIDADE LUSO-BRASILEIRA.
“Ah não, ah não! E se o vídeo viralizar internacionalmente? Vai ser compartilhado no Brasil e em Portugal!”
Chegou na velhinha que ainda não o havia visto e não teve dúvidas. Como que por instinto, sem desacelerar, socou a cara da senhora com todo o peso e velocidade do seu corpo.
Marcelo sentiu os ossinho frágeis do rosto da velhinha se quebrando em seu punho, enquanto alguém em algum lugar continuava:
- Lhe explicar…
Pulou o amontoado de velha e andador e continuou correndo. Sabia que estava perto da saída. Talvez houvesse conseguido passar despercebido. Ou talvez o vídeo nem viralizasse. Deu uma risada involuntária de alívio, mas o horror que viu em seguida acabou com toda a sua esperança.
Pela porta da cozinha, bem na sua frente, saiu Roberto Carlos em pessoa, vestido de padeiro e carregando uma bandeja de broas de milho.
Naquele momento Marcelo soube que o vídeo viralizaria. Aquilo seria compartilhado em todos os países lusófonos.
- Como é grande… - Cantou o Rei - O meu amor…
E o restaurante inteiro cantou com ele:
- POR VOCÊ!
Aquele ponto onde o cantor e Marcelo estavam era o foco de todos os celulares do restaurante.
Marcelo tapou o rosto e correu, desgovernado como um rinoceronte cego. Trombou no cantor, que deu um berro ao cair. A bandeja metálica fez um barulho alto ao bater no chão e ele quase escorregou em uma broa, mas manteve o equilíbrio.
“A saída deve ser logo aqui”, pensou. Abriu os dedos para espiar a sua frente e seu coração quase parou por um segundo. Tapando a saída, e com todas as câmeras apontadas para ele, estava uma equipe de filmagem inteira. Todos boquiabertos com o que estava acontecendo.
“Fudeu”. Marcelo parou na frente da equipe. Por um segundo ficou paralisado. Atrás de si ouvia a comoção das pessoas ajudando Roberto Carlos. “É isso. Vou estar no vídeo. Minha vida acabou”.
“Só tem um jeito agora”. Marcelo percebeu o que deveria fazer. Ele não queria, mas era a única opção. “Tenho que estragar essa filmagem, torná-la inutilizável”. Talvez as pessoas no restaurante ainda compartilhassem o vídeo, mas ao menos seu rosto não estaria em HD na televisão.
Assim que descobriu seu rosto, Marcelo tirou a roupa. Broas de milho rolaram saindo sabe-se lá de onde. Já suado da correria e totalmente nu, ele começou a dançar na frente das câmeras, balançando os braços e andando de lado como um caranguejo, exausto, e cantando o mais alto que podia:
- Nem mesmo o céu… arf, arf… nem as estrelas… Nem mesmo o mar… arf, arf… e o infinito…
Correu em direção à equipe de filmagem, decidido a passar por eles mesmo que à força. Gritou, sem melodia nenhuma, algo que parecia mais um grito de guerra do que música:
- NADA É MAIOR QUE O MEU AMOR!
Marcelo agarrou a ponta de um microfone comprido, e como uma vara o utilizou para saltar a equipe de filmagem. Caiu pelado no concreto da calçada.
- Nem mais bonito - suspirou.
Apesar do caos da cidade, o lado de fora do restaurante lhe passou paz. Marcelo levantou-se e correu, cheio de dores, o mais rápido que podia em direção à sua casa. As pessoas na calçada puderam o ouvir cantando:
- Me desespero, a procurar… Alguma forma de lhe falar…
A televisão mostrou exaustivamente, em HD, o vilão sem rosto que agrediu clientes e Roberto Carlos num restaurante, censurando a cara do homem como costuma fazer com criminosos. Por causa da popularidade do vídeo oficial, as filmagens de celular do evento, em que o rosto dele mal era visível, não foram tão populares. Para a sorte de Marcelo, naquela semana, o vídeo mais compartilhado no WhatsApp brasileiro foi o de um gato se assustando com um pepino.
Já em Angola, hoje ele é uma celebridade.
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2019.09.01 02:14 KoopaTrope O Vídeo Viral

No meio do restaurante lotado, a mulher subiu na mesa e cantou:
- Eu tenho tanto…
Todos ao seu redor a olharam confusos.
Um homem de terno subiu em outra mesa e continuou a música do Roberto:
- Pra lhe falar…
“Oh não!” pensou Marcelo. “Oh não, oh não, oh não! Puta que o pariu! É um daqueles vídeos. Flash mob?”
Um dos cozinheiros do local apareceu na janelinha por onde os pratos sujos passavam, e cantou com um sotaque português forte:
- Maish cum p-lavras…
Marcelo se levantou. “Preciso sair daqui. Essa porra vai virar vídeo de WhatsApp. Preciso sair agora!”. Muitos o olharam como se ele fosse o próximo a cantar. Ele correu, tentando tampar seu rosto.
Uma moça de vestido longo levantou-se, empurrando sua cadeira e bloqueando o corredor. Marcelo parou de supetão para não trombar-se com ela. A mulher subiu na cadeira e cantou, com graves e agudos exagerados tentando impressionar:
- E nã-ÃO há NA-a-A-da…
Marcelo pôde sentir os celulares se virarem para onde estavam. Imaginou seu rosto compartilhado nos grupos de famílias do Brasil inteiro. No desespero, puxou a cadeira. A moça, que ainda cantava, caiu gritando uma nota fora da escala. Estatelou-se no chão.
“Merda, o que foi que eu fiz?”
Marcelo percebeu que, além de ter agredido uma pessoa, atraíra mais atenção para si. Com a adrenalina a flor da pele, pulou a moça e a cadeira num salto só e correu o mais rápido que pôde, desviando-se de mesas, pessoas e garçons.
- Pra comparar…
Ele já não via quem estava cantando. Na sua frente uma senhorinha num andador bloqueava a sua passagem. Ela parecia confusa, tentando entender o que se passava ao seu redor. Marcelo não ousava gritar e ter sua voz no vídeo, mas acenava com as mãos enquanto corria, tentando chamar sua atenção e fazê-la lhe dar passagem.
- Pra poder…
Um telão caiu cobrindo uma parede inteira do restaurante português. Com o canto dos olhos, Marcelo leu: FELIZ DIA DA COMUNIDADE LUSO-BRASILEIRA.
“Ah não, ah não! E se o vídeo viralizar internacionalmente? Vai ser compartilhado no Brasil e em Portugal!”
Chegou na velhinha que ainda não o havia visto e não teve dúvidas. Como que por instinto, sem desacelerar, socou a cara da senhora com todo o peso e velocidade do seu corpo.
Marcelo sentiu os ossinho frágeis do rosto da velhinha se quebrando em seu punho, enquanto alguém em algum lugar continuava:
- Lhe explicar…
Pulou o amontoado de velha e andador e continuou correndo. Sabia que estava perto da saída. Talvez houvesse conseguido passar despercebido. Ou talvez o vídeo nem viralizasse. Deu uma risada involuntária de alívio, mas o horror que viu em seguida acabou com toda a sua esperança.
Pela porta da cozinha, bem na sua frente, saiu Roberto Carlos em pessoa, vestido de padeiro e carregando uma bandeja de broas de milho.
Naquele momento Marcelo soube que o vídeo viralizaria. Aquilo seria compartilhado em todos os países lusófonos.
- Como é grande… - Cantou o Rei - O meu amor…
E o restaurante inteiro cantou com ele:
- POR VOCÊ!
Aquele ponto onde o cantor e Marcelo estavam era o foco de todos os celulares do restaurante.
Marcelo tapou o rosto e correu, desgovernado como um rinoceronte cego. Trombou no cantor, que deu um berro ao cair. A bandeja metálica fez um barulho alto ao bater no chão e ele quase escorregou em uma broa, mas manteve o equilíbrio.
“A saída deve ser logo aqui”, pensou. Abriu os dedos para espiar a sua frente e seu coração quase parou por um segundo. Tapando a saída, e com todas as câmeras apontadas para ele, estava uma equipe de filmagem inteira. Todos boquiabertos com o que estava acontecendo.
“Fudeu”. Marcelo parou na frente da equipe. Por um segundo ficou paralisado. Atrás de si ouvia a comoção das pessoas ajudando Roberto Carlos. “É isso. Vou estar no vídeo. Minha vida acabou”.
“Só tem um jeito agora”. Marcelo percebeu o que deveria fazer. Ele não queria, mas era a única opção. “Tenho que estragar essa filmagem, torná-la inutilizável”. Talvez as pessoas no restaurante ainda compartilhassem o vídeo, mas ao menos seu rosto não estaria em HD na televisão.
Assim que descobriu seu rosto, Marcelo tirou a roupa. Broas de milho rolaram saindo sabe-se lá de onde. Já suado da correria e totalmente nu, ele começou a dançar na frente das câmeras, balançando os braços e andando de lado como um caranguejo, exausto, e cantando o mais alto que podia:
- Nem mesmo o céu… arf, arf… nem as estrelas… Nem mesmo o mar… arf, arf… e o infinito…
Correu em direção à equipe de filmagem, decidido a passar por eles mesmo que à força. Gritou, sem melodia nenhuma, algo que parecia mais um grito de guerra do que música:
- NADA É MAIOR QUE O MEU AMOR!
Marcelo agarrou a ponta de um microfone comprido, e como uma vara o utilizou para saltar a equipe de filmagem. Caiu pelado no concreto da calçada.
- Nem mais bonito - suspirou.
Apesar do caos da cidade, o lado de fora do restaurante lhe passou paz. Marcelo levantou-se e correu, cheio de dores, o mais rápido que podia em direção à sua casa. As pessoas na calçada puderam o ouvir cantando:
- Me desespero, a procurar… Alguma forma de lhe falar…
A televisão mostrou exaustivamente, em HD, o vilão sem rosto que agrediu clientes e Roberto Carlos num restaurante, censurando a cara do homem como costuma fazer com criminosos. Por causa da popularidade do vídeo oficial, as filmagens de celular do evento, em que o rosto dele mal era visível, não foram tão populares. Para a sorte de Marcelo, naquela semana, o vídeo mais compartilhado no WhatsApp brasileiro foi o de um gato se assustando com um pepino.
Já em Angola, hoje ele é uma celebridade.
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